
Há coisas que parecem que vêm ao nosso encontro quando, de certa forma, as procuramos. Esta semana estava a tomar o meu pequeno-almoço e uma notícia chamou a minha atenção sobre uma polémica em torno de Günter Grass um alemão que tem actualmente 84 anos e que foi Nobel da Literatura em 1999.
Este poema escrito por um antigo membro das SS tem vindo a causar muita polémica e fez com que Günter Grass passa-se a estar impedido de entrar em Israel por ter atacado o programa nuclear deste país.
Claro que não podemos nem devemos reduzir a obra de um autor a um único poema, sobretudo um autor que ganhou o Prémio Nobel da Literatura.
E polémica à parte, diz de facto aquilo que tem de ser dito e muita gente, nomeadamente os dirigentes internacionais não têm coragem de dizer. Atirou uma pedra ao charco.
Deixo-vos uma possível tradução que encontrei. O poema original foi escrito em Alemão e há diversas traduções parecidas umas com as outras, mas que diferem um pouco nas palavras escolhidas. Como não sei alemão escolhi duas das versões que encontrei, uma em português e a outra em inglês, espero que sejam as mais adequadas.
Aquilo que tem de ser dito
Por que me tenho calado, calado me por tempo demais
sobre o que é patente e já vem sendo ensaiado
em simulações ao fim das quais nós, como sobreviventes,
somos no máximo umas notas de rodapé?
É o alegado direito de ataque preventivo
que poderia extinguir aquele povo
subjugado por um fanfarrão
e empurrado ao júbilo organizado (o iraniano),
porque se suspeita da construção
de uma bomba atómica nos seus domínios.
Por que, no entanto, eu me proíbo
de chamar pelo nome aquele outro país
no qual se dispõe há anos - ainda que em segredo –
de um potencial nuclear crescente
e sem controle, pois não se dá acesso
a nenhuma inspeção?
A generalizada omissão desse fato,
à qual se subordina o meu calar,
eu a sinto como incriminadora mentira
e coerção com promessa de punição:
assim que desobedecida,
o veredito “antissemitismo” está em toda parte.
Agora, porém, porque o meu país,
- que por seus crimes próprios,
que estão além de comparação,
é volta e meia chamando às falas
deve entregar a Israel
(por razões puramente comerciais,
embora declarado com lábios ligeiros
que se trata de reparação)
mais um submarino, cuja especialidade
é ser capaz de direcionar ogivas
de destruição total a um lugar
onde não foi comprovada a existência
de uma bomba atômica sequer, e no entanto
com o fim de atemorizar se pretende
que existam provas conclusivas –
por isso agora eu vou dizer
o que precisa ser dito.
Por que, no entanto, até agora eu me calei?
Porque eu pensava que a minha origem,
marcada com mácula nunca extinguível,
proibia declarar tais fatos como verdadeiros
em relação ao país Israel, com o qual tenho laços
e quero continuar a ter.
Por que é que eu digo somente agora,
envelhecido e com o fim da minha tinta,
que o poder atómico de Israel põe em risco
a paz mundial, já frágil sem isso?
Porque precisa ser dito
o que amanhã pode ser muito tarde;
e também porque nós
- como alemães já o suficiente incriminados –
podemos vir a ser fornecedores para um crime previsível,
com o que nenhuma das usuais desculpas
teria o poder de redimir
nossa participação na culpa.
E admito: não mais me calo
porque estou farto da hipocrisia do Ocidente,
e tenho esperança que com isso
possam se libertar muitos desse calar-se
e conclamar o causador do reconhecível perigo
a abrir mão de violência, e igualmente
a que seja permitido pelos governos dos dois países
um controle permanente e desimpedido
do potencial atómico de israel
e das instalações atómicas iranianas
por uma instância internacional.
Somente assim será possível ajudar
a todos, israelitas e palestinos,
e mais: a todos os seres humanos
que nessa região ocupada pelo delírio
vivem apertados em inimizade, e afinal
a nós mesmos também.
There are things that seem to come to us when, somehow, we look for them. This week was taking my breakfast and a story caught my attention on a controversy about a German Günter Grass who is currently 84 years and that was the Nobel in 1999.This poem written by a former member of SS has been causing much controversy and made Günter Grass is to be prevented from entering Israel for attacking the country's nuclear program.
Of course we can not and should reduce the work of an author to a single poem, especially a writer who won the Nobel Prize for Literature.
And controversy aside, says the fact that what has been said and many people, including international leaders do not dare say. He threw a stone at the pond.
I leave you I found a possible translation. The original poem was written in German and there are several translations similar to each other, but differ somewhat in the words chosen. As I do not know of German picked two versions I found, one in Portuguese and one in English, I hope you are the most appropriate.
What must be said
Why have I kept silent, held back so long,
on something openly practiced in
war games, at the end of which those of us
who survive will at best be footnotes?
It’s the alleged right to a first strike
that could destroy an Iranian people
subjugated by a loudmouth
and gathered in organized rallies,
because an atom bomb may be being
developed within his arc of power.
Yet why do I hesitate to name
that other land in which
for years—although kept secret—
a growing nuclear power has existed
beyond supervision or verification,
subject to no inspection of any kind?
This general silence on the facts,
before which my own silence has bowed,
seems to me a troubling lie, and compels
me toward a likely punishment
the moment it’s flouted:
the verdict “Anti-semitism” falls easily.
But now that my own country,
brought in time after time
for questioning about its own crimes,
profound and beyond compare,
is said to be the departure point,
(on what is merely business,
though easily declared an act of reparation)
for yet another submarine equipped
to transport nuclear warheads
to Israel, where not a single atom bomb
has yet been proved to exist, with fear alone
the only evidence, I’ll say what must be said.
But why have I kept silent till now?
Because I thought my own origins,
Tarnished by a stain that can never be removed,
meant I could not expect Israel, a land
to which I am, and always will be, attached,
to accept this open declaration of the truth.
Why only now, grown old,
and with what ink remains, do I say:
Israel’s atomic power endangers
an already fragile world peace?
Because what must be said
may be too late tomorrow;
and because—burdend enough as Germans—
we may be providing material for a crime
that is foreseeable, so that our complicity
wil not be expunged by any
of the usual excuses.
And granted: I’ve broken my silence
because I’m sick of the West’s hypocrisy;
and I hope too that many may be freed
from their silence, may demand
that those responsible for the open danger
we face renounce the use of force,
may insist that the governments of
both Iran and Israel allow an international authority
free and open inspection of
the nuclear potential and capability of both.
No other course offers help
to Israelis and Palestinians alike,
to all those living side by side in emnity
in this region occupied by illusions,
and ultimately, to all of us.
Günter Grass
Translated by Breon Mitchell
Guardian 05.04.12
Em
alemão / in
German:
Até Já / See you
soon


Sem comentários:
Enviar um comentário
O teu comentário motiva o meu trabalho. Obrigado
Your comment motivates my work. Thanks!