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terça-feira, 10 de abril de 2012

Poesia da Semana / Poetry of the Week - Aquilo que tem de ser dito / What must be said -Günter Grass



Há coisas que parecem que vêm ao nosso encontro quando, de certa forma, as procuramos. Esta semana estava a tomar o meu pequeno-almoço e uma notícia chamou a minha atenção sobre uma polémica em torno de Günter Grass um alemão que tem actualmente 84 anos e que foi Nobel da Literatura em 1999.

Este poema escrito por um antigo membro das SS tem vindo a causar muita polémica e fez com que Günter Grass passa-se a estar impedido de entrar em Israel por ter atacado o programa nuclear deste país.

 Claro que não podemos nem devemos reduzir a obra de um autor a um único poema, sobretudo um autor que ganhou o Prémio Nobel da Literatura.

E polémica à parte, diz de facto aquilo que tem de ser dito e muita gente, nomeadamente os dirigentes internacionais não têm coragem de dizer. Atirou uma pedra ao charco.

Deixo-vos uma possível tradução que encontrei. O poema original foi escrito em Alemão e há diversas traduções parecidas umas com as outras, mas que diferem um pouco nas palavras escolhidas. Como não sei alemão escolhi duas das versões que encontrei, uma em português e a outra em inglês, espero que sejam as mais adequadas.



Aquilo que tem de ser dito

Por que me tenho calado, calado me por tempo demais

sobre o que é patente e já vem sendo ensaiado

em simulações ao fim das quais nós, como sobreviventes,

somos no máximo umas notas de rodapé?

É o alegado direito de ataque preventivo

que poderia extinguir aquele povo

subjugado por um fanfarrão

e empurrado ao júbilo organizado (o iraniano),

porque se suspeita da construção

de uma bomba atómica nos seus domínios.

Por que, no entanto, eu me proíbo

de chamar pelo nome aquele outro país

no qual se dispõe há anos - ainda que em segredo –

de um potencial nuclear crescente

e sem controle, pois não se dá acesso

a nenhuma inspeção?

A generalizada omissão desse fato,

à qual se subordina o meu calar,

eu a sinto como incriminadora mentira

e coerção com promessa de punição:

assim que desobedecida,

o veredito “antissemitismo” está em toda parte.

Agora, porém, porque o meu país,

- que por seus crimes próprios,

que estão além de comparação,

é volta e meia chamando às falas ­

deve entregar a Israel

(por razões puramente comerciais,

embora declarado com lábios ligeiros

que se trata de reparação)

mais um submarino, cuja especialidade

é ser capaz de direcionar ogivas

de destruição total a um lugar

onde não foi comprovada a existência

de uma bomba atômica sequer, e no entanto

com o fim de atemorizar se pretende

que existam provas conclusivas –

por isso agora eu vou dizer

o que precisa ser dito.

Por que, no entanto, até agora eu me calei?

Porque eu pensava que a minha origem,

marcada com mácula nunca extinguível,

proibia declarar tais fatos como verdadeiros

em relação ao país Israel, com o qual tenho laços

e quero continuar a ter.

Por que é que eu digo somente agora,

envelhecido e com o fim da minha tinta,

que o poder atómico de Israel põe em risco

a paz mundial, já frágil sem isso?

Porque precisa ser dito

o que amanhã pode ser muito tarde;

e também porque nós

- como alemães já o suficiente incriminados –

podemos vir a ser fornecedores para um crime previsível,

com o que nenhuma das usuais desculpas

teria o poder de redimir

nossa participação na culpa.

E admito: não mais me calo

porque estou farto da hipocrisia do Ocidente,

e tenho esperança que com isso

possam se libertar muitos desse calar-se

e conclamar o causador do reconhecível perigo

a abrir mão de violência, e igualmente

a que seja permitido pelos governos dos dois países

um controle permanente e desimpedido

do potencial atómico de israel

e das instalações atómicas iranianas

por uma instância internacional.

Somente assim será possível ajudar

a todos, israelitas e palestinos,

e mais: a todos os seres humanos

que nessa região ocupada pelo delírio

vivem apertados em inimizade, e afinal

a nós mesmos também.


Quem estiver interessado em saber mais: http://pt.wikipedia.org/wiki/G%C3%BCnter_Grass


There are things that seem to come to us when, somehow, we look for them. This week was taking my breakfast and a story caught my attention on a controversy about a German Günter Grass who is currently 84 years and that was the Nobel in 1999.

This poem written by a former member of SS has been causing much controversy and made Günter Grass is to be prevented from entering Israel for attacking the country's nuclear program.

Of course we can not and should reduce the work of an author to a single poem, especially a writer who won the Nobel Prize for Literature.

And controversy aside, says the fact that what has been said and many people, including international leaders do not dare say. He threw a stone at the pond.

I leave you I found a possible translation. The original poem was written in German and there are several translations similar to each other, but differ somewhat in the words chosen. As I do not know of German picked two versions I found, one in Portuguese and one in English, I hope you are the most appropriate.



What must be said

Why have I kept silent, held back so long,

on something openly practiced in

war games, at the end of which those of us

who survive will at best be footnotes?

It’s the alleged right to a first strike

that could destroy an Iranian people

subjugated by a loudmouth

and gathered in organized rallies,

because an atom bomb may be being

developed within his arc of power.

Yet why do I hesitate to name

that other land in which

for years—although kept secret—

a growing nuclear power has existed

beyond supervision or verification,

subject to no inspection of any kind?

This general silence on the facts,

before which my own silence has bowed,

seems to me a troubling lie, and compels

me toward a likely punishment

the moment it’s flouted:

the verdict “Anti-semitism” falls easily.

But now that my own country,

brought in time after time

for questioning about its own crimes,

profound and beyond compare,

is said to be the departure point,

(on what is merely business,

though easily declared an act of reparation)

for yet another submarine equipped

to transport nuclear warheads

to Israel, where not a single atom bomb

has yet been proved to exist, with fear alone

the only evidence, I’ll say what must be said.

But why have I kept silent till now?

Because I thought my own origins,

Tarnished by a stain that can never be removed,

meant I could not expect Israel, a land

to which I am, and always will be, attached,

to accept this open declaration of the truth.

Why only now, grown old,

and with what ink remains, do I say:

Israel’s atomic power endangers

an already fragile world peace?

Because what must be said

may be too late tomorrow;

and because—burdend enough as Germans—

we may be providing material for a crime

that is foreseeable, so that our complicity

wil not be expunged by any

of the usual excuses.

And granted: I’ve broken my silence

because I’m sick of the West’s hypocrisy;

and I hope too that many may be freed

from their silence, may demand

that those responsible for the open danger

we face renounce the use of force,

may insist that the governments of

both Iran and Israel allow an international authority

free and open inspection of

the nuclear potential and capability of both.

No other course offers help

to Israelis and Palestinians alike,

to all those living side by side in emnity

in this region occupied by illusions,

and ultimately, to all of us.

Günter Grass

Translated by Breon Mitchell

Guardian 05.04.12


 
Em alemão / in German:




Até Já / See you soon

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